Naufrágio de uma vida, por Julia W. de Oliveira
Estávamos eu e meu amigo, comemorando a véspera
dos seus dezenove anos, navegando a mar aberto com a lancha de seu
pai. Gabriel e eu nos conhecemos há muitos anos, passamos grande
parte das nossas vidas juntos. O dia estava cinzento com muito vento, porém decidimos ir
ainda assim. Quando nos demos conta, estávamos muito afastados da
costa, mas continuamos indo, apesar do vento.
De repente, avistei uma grande embarcação vindo do
horizonte em direção a nós e logo encostando em nossa lancha. Eles pareciam piratas,
querendo roubar o nosso barco. Assustado, corri e me escondi logo atrás da
direção do barco: um longo grito silenciou o oceano. Várias
coisas passaram na minha cabeça naquele instante: "o que estava a
acontecer?", "seria aquele o grito de Gabriel ou de um dos
invasores?". Sem pensar me arremessei para fora do barco caindo
no oceano. Comecei a pensar no que aconteceria a partir dali. Ouvi o
barco se afastar e comecei a procurar uma maneira de voltar a proa da lancha.
Nada encontrava, estava eu, no meio do oceano com uma lancha ao meu lado porém
sem ter como retornar. Procurei Gabriel também, gritei e gritei, e não recebi
uma resposta. A única coisa que se passava na minha cabeça é que ali estavam os
meus últimos minutos e que eles seriam rodeados de sofrimento. A cada
minuto que passava, mais frio eu sentia, mais medo percorria o meu corpo. Esse
foi um momento de reflexão sobre tudo que já tinha feito e que tinha deixado de
fazer. Uma voz interior, começou a me interrogar sobre o passado, e eu, assustado,
estava incapacitado de responder, não consegui nem sequer pensar. Depois de um
tempo, comecei a ter alucinações. Nunca tive isso anteriormente, não sei
afirmar então o que realmente era. Comecei a ouvir a voz de minha mãe que
morreu no meu aniversário de onze anos:
– Relaxe meu filho, venha comigo, se permita ir!
E aquilo me deixou completamente assustado, gastei
minhas últimas energias tentando procurar mais uma vez, um modo de
retornar, sem sucesso. A morte da minha mãe foi algo muito traumático na minha
vida. Meu pai largou a minha mãe assim que descobriu que ela estava grávida,
foi sempre só nós dois. Após a morte dela, morei em um abrigo até completar
dezoito anos. Ouvir ela me chamar em meus últimos minutos, foi algo
muito tentador, eu sentia muito a sua falta. Estava exausto, com o frio
percorrendo cada centímetro do meu corpo, queria ir, mas não queria
que o meu fim fosse assim. Eu havia acabado de completar vinte e um
anos, havia muito o que viver ainda, mas ali estavam os meus últimos minutos
até eu me entregar e submergir.