Identidade, por Maytê M. de Souza

Eu estava descendo uma escada  de metal, com a claridade solar dificultando minha visão. Fui descendo degrau por degrau olhando para o que eu estava vestindo. Um jaleco? Branco, comprido,um relógio dourado no pulso. Passei as mãos pelos cabelos, estavam úmidos, passei as mãos no meu rosto, sem óculos, olhei para meus pés, botas sujas de barro.
Cheguei no térreo do hospital. Um lugar conturbado, pessoas com cadeiras de rodas, todos com jalecos e um estetoscópio no pescoço. Era um hospital. Andei em direção ao balcão para pedir informações, sobre tudo o que estava acontecendo, porém meu andar foi interrompido por uma mulher, uma mulher que jogou papéis nos meus peitos com força, induzindo que era para segurá-los: sem reação.
–Parabéns cachinhos dourados. Pode comemorar! Você tem uma craniotomia de urgência agora. Falou sarcástica.
Ela se apoiou no balcão assinando alguns documentos, parecendo cansada, esgotada. Percebi o bronzeado de um anel na sua mãe esquerda, foi casada. Sem importância, fui embora. Coloquei os papéis que ainda segurava contra o peito na bancada de coloração esverdeada e os observei. Doutora Maytê Souza, Neurocirurgiã. Paciente: Marli Osmarina? Tumor no cérebro, Raio-X. A balconista incomodada com a minha presença, pelo menos ela demonstrava.
– Doutora, como a senhora aguentou ser casada com uma pessoa assim?- me interrogou.
Casada? Me espantei na hora, debruçada na mesa, coloquei as mãos no rosto. Depois daquilo veio milhares de perguntas na cabeça para fazer à moça: a voz não saía. A minha voz não saía! A moça não me ouvia, tentava chamar sua atenção, ela não me via, tentei tocar nela, foi em vão. Parece que ela conseguia interagir comigo, porém não conseguia interagir com ela. Fiquei parada na sua frente, muitas vezes pulando e balançando os braços, mas continuava a focar na tela de computador. Tentei chamar atenção das pessoas que passavam em volta, sem sucesso. Desisti.
– Doutora o horário de visita é agora. A senhora pode lá ver sua avó – se virou rapidamente para o computador.
Era minha avó! Comecei a chorar. Fui sentar em um banquinho perto de um vaso gigante do outro lado do balcão. Câncer. Não sabia o que estava fazendo, nem como tinha chego ali. Meus pensamentos me fizeram voltar à realidade. Peguei o prontuário e saí correndo. Olhei o número do seu quarto e o andar, peguei o elevador.
Cheguei avistando um quartinho de porta aberta. Me aproximei vendo que as paredes estavam lotadas de flores, quadros e balões: ela continuava só. Estava deitada na cama, cheia de agulhas espetadas no seu braço. Um lenço preto com pétalas de rosas tampavam seu coro cabeludo. Seu rosto parecia passivo de longe, então me aproximei e ajoelhei do lado da maca, tocando na sua mão fria, tendo as unhas curtas e corroídas. Ela abriu os olhos, respirou fundo virando para o lado direito, fixando o olhar no meu. As lágrimas escorreram de ambas as faces. O choro interferia na sua hora de falar. Vislumbrava o teto rico de estrelas adesivas, permitindo que a emoção a dominasse. Virou pra mim de novo. Não falei absolutamente nada, contudo tentei balbuciar: Quem eu sou? Consegui, sem emitir nenhum som. Apoiei minha cabeça no colchão, ainda segurando sua mão, pensando ter sido inútil meu esforço.
– Se tu és eu – sua voz era rouca, fraca, parecia aquelas vozes de fumante – e eu sou tu, então quem nós somos? – a fraqueza na sua voz era imensa.
Beijei sua mão gelada e passei os dedos no seu rosto, enxugando as lágrimas. Ela voltou a olhar para cima dizendo: – Eu não estou mais aqui. Parabéns meus cachinhos dourados. Voltei a baixar a cabeça sobre sua mão, levantei novamente.
– Vó...

Acordei.